ARTIGOS

A medicalização da educação

Muitos educadores já perceberam o quanto aumentou o número de crianças que estão tomando Ritalina na escola. Só para termos um parâmetro de comparação, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos usuários de Medicamentos – IDUM, nos últimos anos o consumo do metilfenidato ( nome científico da Ritalina), aumentou em 1616%. Em 2000 foram vendidas 71 mil caixas e em 2008 esse número chegou a 1.147.000 (um milhão e cento e quarenta e sete mil) caixas e hoje o número ultrapassa 3 milhões de caixas. Ou seja, ninguém pode negar que o uso alastrou mesmo Brasil afora. Porém, as perguntas a que nos fazemos agora são: será que todos estes diagnósticos estão corretos? Há mesmo tantas crianças hiperativas precisando tomar Ritalina? De um lado, pais procuram médicos dizendo que as escolas os procuraram dizendo que seus filhos não param quietos na sala de aula, que não prestam atenção nas explicações dos professores e que incomodam diariamente colegas e professores. Por outro lado, médicos dizem que com o aprimoramento de possibilidades de diagnósticos, chegou-se hoje ao número real de crianças com algum tipo de déficit de atenção e que, portanto, seria esta a justificativa do tamanho do crescimento do uso de metilfenidato. Estaríamos diante de um número de subnotificação. Porém, no meio desta discussão ainda consta um terceiro, e talvez mais relevante fator, que é o poder dos laboratórios que produzem medicamentos para todo tipo de mal que afeta a sociedade e, nesse caso, o mal estar desta civilização dita moderna reside também na inquietude, no não conformismo, na agitação e na falta de atenção para todo e qualquer procedimento em que o pensamento e a atenção sejam cobrados. Ninguém hoje quer mais ter tempo e apreço ao outro, sobretudo dar uma atenção que lhe custaria muito caro. Ninguém pode, hoje, afirmar quem tem ou não razão, afinal, esta situação só chegou a este ponto por uma série de fatores que procurarei observar a partir de agora. O primeiro fator a que podemos ponderar é que filhos sem pais e sem mães, sem amigos e sem família não podem mesmo ficar concentrados. Há dezenas de teorias dizendo o quanto educar filhos requer tempo, paixão e atenção. Dessa forma, quando uma criança sente que é amada não precisará ficar chamando a atenção de todos, sobretudo pelo incômodo e pelo desconforto. Segundo, a maioria dos professores que trabalham com crianças, ainda usam metodologias ultrapassadas, sem graça, que nenhum animo despertam nas crianças. Quer dizer, se uma criança vai pra escola e lá encontra um método falido para uma educação falida e vindo de uma escola mais falida ainda, nada que se concentrar. Pelo contrário, elas só demonstrarão o quanto estão insatisfeita com aquele ambiente, que precisa, logo e breve de mudanças para acompanhar a contemporaneidade. No terceiro caso, precisamos entender que a dor, a angustia e a solidão, também fazem parte do desenvolvimento psíquico a que nós humanos devemos nos sucumbir. Nos fortalecemos com nossas perdas também, mas ao que parece, os medicamentos de ação psicoterápica tem encontrado espaço justamente aí, onde eles se apresentam como solucionadores rápidos e fáceis de questões humanas que são profundas e totalizantes. O problema disso tudo é que a escola mais uma vez recebeu a incumbência de resolver completamente a situação, ou seja, é a escola que direciona o aluno para o diagnóstico e é para a escola que é direcionada a responsabilidade quando uma criança entra no uso contínuo de medicamento controlado de ação psicoterápica. Quer dizer, o pai e a mãe ficam até meio livres de uma possível culpa por não ter dado limite a seu filho, pois quando é perguntado o porquê de uma criança estar usando tais medicamentos, eles rapidamente respondem: a escola descobriu que ele era hiperativo. Acho que precisamos livrar a escola de mais uma responsabilidade e a mais urgente, neste momento, é esta. Escola não fecha diagnóstico algum. Nela, apenas iluminamos os problemas vindos de casa.

Fonte: Arial
Publicado em 22/03/2015 às 19:03

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